Capítulo 07 - Melhor Que Bom | ENTRELAÇADOS
- Gregory! - Rachel tentou chamar por seu irmão que andava incrivelmente rápido para longe da casa, ela não sabia para onde, mas ela não o deixaria ir embora, não de novo, ela o perdeu uma vez, ela não o deixaria fazer aquilo novamente. Qual era o problema dele? Será que ele tinha fetiche em abandonar a irmã? Ele estava acostumado com aquilo, fugir, havia feito duas vezes, a primeira vez dez anos atrás e a segunda vez naquela noite na chuva. Mas agora era diferente, os dois se conheciam agora, Rachel finalmente conheceu seu irmão, ele não podia ir embora daquele jeito, de novo não.
O mais velho atravessou a casa pelo lado de fora, ele já estava na rua quando Rachel chegou na entrada, ele era mais rápido do que ela. Gregory andou pela calçada e atravessou a rua para longe dali com Rachel o seguindo.
- Gregory! – ela gritou por seu irmão mais velho, ela pensou em ligar para ele, mas ela havia esquecido seu telefone em casa, droga! Qual era seu número? Droga novamente, ela não tinha pego o número de telefone dele. Como ela pode ser tão burra.
Seu irmão ia ficando cada vez mais longe de Rachel, ele era rápido demais, suas pernas eram desnecessariamente longas, ela desejou que elas fossem menores. Rachel não estava acostumada a fazer aquilo, correr e correr atrás de alguém no meio da rua à noite, especialmente não do seu irmão, céus, ela não estava acostumada a ter um irmão, será que aquele era um programa normal entre irmãos? Uma quarta-feira qualquer.
Depois de alguns minutos andando eles iam se aproximando mais do centro da cidade, a calmaria do subúrbio ia dando lugar a construções maiores e muito mais pessoas. Ele sumiu entre as pessoas que estavam perambulando pelas calçadas, ela o perdeu, como era possível, ele estava na sua frente segundos atrás, Rachel parou e rodou todo aquele lugar em busca dele, onde ele podia estar? Ela ouviu um barulho maior do que as conversas de pessoas estranhas, será que ele estava lá?
Lá estava ele, Gregory não tinha ido muito longe ele estava em uma praça de skate que ficava ali perto, Rachel nunca tinha ido ali sozinha, apenas passado por ela de carro com seus pais. Ele estava sentado em um banco mais afastado das pessoas em frente a uma cerca de metal que dividia a calçada e a pista de skate onde tinha uma maior movimentação de pessoas, ele estava contemplando os movimentos de alguns dos skatistas que faziam suas manobras, algumas davam certos e havia piruetas, enquanto algumas eram falhas e o barulho da pessoa caindo no chão juntamente com o skate podia se ouvir do banco. Rachel parou em sua frente, ela estava recuperando o folego, haviam se passado quase trinta ou quarenta minutos desde que saíram de casa.
- Greg – ela falou quando conseguiu respirar normalmente.
- Rachel? – ele disse olhando em sua direção surpreso.
-Você não me ouviu te chamando? – ela disse.
- Não – ele disse baixo. Rachel se sentou ao lado esquerdo de seu irmão no banco que começou a olhar para baixo.
- Greg... – Rachel colocou sua mão no ombro de seu irmão acariciando-o, ela não sabia o que falar, havia tantas coisas em sua cabeça naquele momento, ele iria embora se ela falasse o que estava pensando?
- Rachel se você for o defender nem vem – Greg disse negando o afago em seu ombro.
- Não, eu não vou defender o papai. Mas também não vou ficar do seu lado – ela disse bufando com as palavras dele.
- Como assim?
- Vocês dois... Vocês dois estão errados, parecem duas crianças orgulhosas que não aceitam perder.
- Rach...
- Eu não me importo com o seu problema com o papai, se ele foi um pai ruim eu sinto muito, mas você agiu de forma imatura, tanto na mesa quanto dez anos atrás, você só pensou em você, no que você sentia.
- Eu...
- Gregory! – ela o interrompeu – por favor, você vai ficar quieto e me escutar agora – Rachel falou determinada e calando seu irmão – por mais errado que o papai foi. O que você fez não atingiu apenas ele, ou você se esqueceu da mamãe? Fui eu quem tive que recolher os cacos quando você foi embora, fui eu que tive que ficar do lado dela, tudo isso porque você não olhou para ninguém além de você mesmo, eu mal tinha dez anos e tive que presenciar nossa mãe chorando quase todas as noites. Você não fugiu só do papai naquela noite, você também fugiu dela também, e de mim.
- Rachel, me desculpa, mas...
- “Mas...” nada! – Rachel não sabia como tinha arranjado coragem para falar tudo aquilo, ela teve receio de bombardear Greg com tudo aquilo, se ele fugisse novamente? Mas ela não podia viver pisando em cacos de vidro com medo dele ir embora, ele era o irmão mais velho, era ele quem devia proteger ela, e não o contrário - você sabe o que é ter que ver seus pais brigando constantemente por causa de uma pessoa que nem está lá? A mamãe ficou desolada e o papai fingiu que aquilo não atingiu ele, mas era claro que ele também sofreu, pode não parecer, mas ele ainda é seu pai, nosso pai.
- Rachel, eu não queria ter ido daquela forma, mas estava tudo tão caótico para mim, aquela foi a única solução que eu pensei naquele momento, me perdoa.
- Eu te perdoo – ela disse – mas por favor não faça de novo, eu não quero ter que reviver tudo aquilo.
- Eu não vou fugir, eu prometo – Gregory disse segurando as mãos de sua irmã e olhando em seus olhos, como os olhos dele eram bonitos ela pensou.
- Tem certeza?
- Sim.
- Mas então por que você está aqui? – Rachel olha ao seu redor - na primeira desavença com ele você sai correndo de casa, se acontecer algo novamente você vai sumir por mais dez anos?
- Eu...
- Talvez seja mais fácil fugir, mas não quer dizer que seja o correto – lagrimas começaram a escorrer dos olhos de Rachel – eu... eu nunca mais vou te perdoar se você fizer isso, eu quero ter um irmão Gregory, por favor – sua voz falha, ela leva suas mãos ao seu rosto para enxugar suas lagrimas que agora caiam incessantemente.
- Rachel – Gregory disse puxando a mais nova para um abraço
Quente, foi a primeira coisa que Rachel sentiu com o abraço de seu irmão, Gregory emanava calor de um jeito que ela nunca havia sentido antes, a acalmava, era como se toda a dor que ela estava sentindo naquele momento relembrando o passado foi embora. Em seus braços Rachel sentiu os batimentos do coração de seu irmão, ela nunca havia comparado antes, mas aquele era com certeza o melhor abraço que ela recebera na sua vida, os dois se encaixaram como se cada um foi moldado exatamente para aquela posição, cada um nos braços do outro.
- Eu prometo, quantas vezes você quiser – Gregory disse apertando ainda mais seus braço ao redor de sua irmã – eu não vou mais fugir. Chega
- De verdade? – Rachel diz fungando, os dois se afastam e olham um no rosto do outro.
- Sim, - ele disse, o coração de Rachel perdeu outra batida novamente, aqueles olhos, aquele cheiro, aquele abraço.
Era como se os dois tivessem entrado em um transe no momento em que seus olhos se encontraram, tudo o que Rachel podia ver era seu irmão, todo o barulho, as pessoas ao redor se foram, e tudo o que Rachel conseguia pensar era nele, seus olhos, suas sardas em seu nariz, seu cabelo preto. Assim como ela, Gregory tinha o rosto molhado por lagrimas que caiam mais tímidas que as dela. Os dois sorriram um para o outro.
- Rachel... – Gregory finalmente diz, os dois estavam muito perto um do outro, suas coxas encostavam uma na outra, suas mãos posicionadas as mão esquerda dele ainda fazia a volta nela, mas com sua mão dominante ele enxugou as lagrimas que caiam no rosto dela. Rachel sentiu vergonha, ela estava tão vulnerável ali em sua frente, mal conseguia se lembrar quando ou quem foi a última pessoa a vê-la chorando.
- Gregor... – Rachel tentou dizer, mas não conseguiu terminar sua frase, era como se todas as palavras tivessem sumido da cabeça dela, um branco em sua mente que ela não sabia muito bem como lidar, nunca havia sentido aquilo antes, ela voltaria a falar novamente? Ela não sabia, mas não havia razão para ela voltar a falar, não depois daquilo, o mundo podia acabar naquele momento que ela não iria se importar. O que ela estava fazendo? O que eles estavam fazendo? Ela não sabia direito, deixou a parte de pensar para depois, mas era bom, melhor do que bom, o que podia ser melhor que bom?
Naquele momento os pensamentos de Rachel eram desconexos um com o outro, talvez fosse aquele cheiro, o cheiro de Greg, seu gosto, sua língua... Um beijo, era a palavra que Rachel esqueceu por um momento, mas ela não precisava lembrar para saber que ela se lembraria daquele momento pelo resto de sua vida, ali nos braços de Gregory, sentindo seu cheiro, seu gosto, sua boca, sua língua, aquele beijo era o melhor de sua vida, melhor que bom.
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