Capítulo 05 | BOYS

Eu acordei e logo senti meu braço doer, todo meu corpo estava doendo, mas principalmente Gregory havia me segurado ontem e onde eles haviam amarrado meu pulso, eu me espreguicei, não tinha dormido bem, como eu poderia depois do dia e da noite que eu tive, minha vida seria daquele jeito todos os dias naquela escola? Pela primeira vez eu me arrependi de ter entrado naquele colégio, eu pensei em ligar para minha mãe, mas o que ela faria, ela sequer iria acreditar em mim e Tassio, ele sabia o que acontecia ali quando eu entrei, então ele concordava com aquilo de certa forma, ele colocou o seus próprios filhos naquele inferno, por que ele não me colocaria?
- Acordou? – Gregory disse, eu me assustei com o seu comentário, ele tinha entrado pela porta, ele estava apenas de toalha e seu cabelo estava encharcado, ele tinha tomado banho.
- S-Sim – eu disse, não queria falar com ele.
- Você está com a minha blusa – ele disse apontando para mim.
- Eu... – não sabia o que dizer.
- Você ficou bem nela, pode ficar para você – ele foi para uma cômoda e pegou algo.
- Eu... – não queria aquela blusa, eu estava usando por que era única coisa limpa naquele quarto e eu estava com frio, Gregory soltou sua toalha no chão e ficou completamente pelado, eu virei meu rosto, eu consegui sentir minhas bochechas ficando vermelho.
- O que foi? – ele disse, ele estava colocando a cueca, eu pude ver com o canto dos meus olhos.
- Você! Está... nú.
- Sim e daí? É melhor você ir se acostumando a ver pessoas peladas, principalmente nesse dormitório.
- Onde você foi ontem à noite? – eu perguntei, o clima estava estranho.
- Porque você se importa?
- Eu...
- Eu estava caçando – ele disse, caçando? 
Quando ele estava vestido, mais ou menos, eu pude voltar com meus olhos, e vi que o quarto estava mais cheio do que na noite anterior, eram as minhas coisas, todas jogadas no chão, minhas roupas, meus uniformes, meus livros.
- O que é isso? – eu perguntei com raiva, todas as minhas coisas que eu tinha arrumado estavam jogadas de qualquer jeito naquele chão imundo.
- Suas coisas, eu peguei do outro quarto
- Porque você fez isso – eu fui pegando todas as minhas roupas e colocando na cama.
- Eu te fiz um favor
- Favor? Como isso é um favor? – Eu iria falar mais, mas Gregory se aproximou de mim, com aquele mesmo olhar que me deixou desconcertado, ele me segurou pelos braços, no mesmo lugar de antes o que me fez gemer.
- O que você disse?
- Nada – eu falei olhando com raiva para o chão.
- E como se diz quando alguém faz algo para você? – eu olhei para ele indignado, mas o seu olhar irritado me fez desviar o olhar.
- O-Obrigado – disse forçado.
- Isso, parece que eu vou ter que educar você como se fosse uma criança. Anda, se arruma eu te encontro lá embaixo no refeitório, ele disse depois de colocar o uniforme, ele saiu do quarto, depois de uns segundos eu testei a porta e ela estava aberta, eu queria correr dali, fugir, mas para onde eu iria o colégio era no meio do nada no meio de uma floresta, eu não tinha escolhas, eu não tinha forças para fazer nada também, minha única opção era seguir o baile, no final das contas apesar de ser um babaca Gregory não tinha tentado fazer nada comigo que o Otavio disse que fariam, e aparentemente ele tinha poder, o jeito que ele falou com aqueles meninos e eles obedeceram, talvez se eu ficasse perto dele eu não sofreria, pelo menos não muito.
Eu coloquei o uniforme, era um terno, azul escuro com detalhes em vermelho e um gravata listrada azul e vermelho, eu me arrumei e desci para o refeitório, ele estava cheio, quer dizer, não havia muitas pessoas como na escola que eu frequentei, mas não havia muitas pessoas naquele dormitório, quando eu cheguei todos pararam de conversar e me olharam, eu procurei uma mesa vazia para eu me sentar, mas todas estavam ocupadas, e ninguém parecia que deixaria eu me sentar com elas, eu vi Otavio sentado em uma mesa para dois, ele me olhou como se quisesse falar algo para mim, mas eu virei meu rosto, não queria vê-lo, o que ele tinha feito comigo não tinha sido legal.
E fui para a cantina onde tinha um homem entregando comida, eu peguei minha bandeja e entrei na fila, o café da manhã do dia era um mingau de aveia, mas a cara estava horrível, eu vi quando ele colocava o pote na bandeja e jogava o mingau que não tinha consistência de mingau, me enojei um pouco daquilo, mas eu estava completamente faminto.
- Thomas? – alguém disse, eu virei de costas e era Spencer, ele estava com o mesmo uniforme – Você está bem? – ele perguntou, vê-lo me deixou com um pouco de raiva, afinal era por causa dele que eu estava naquela situação, dele e do irmão dele.
- Eu...
- Quando eu fui para o nosso quarto tinha um garoto pegando suas coisas, ele disse que você não ia dormir lá mais... O que aconteceu.
- Tudo bem? – outra pessoa disse, era Gregory, ele se aproximou de nós, Spencer ficou com medo dele, Gregory colocou sua mão em meu ombro e ficou do meu lado.
- Porque você não pergunta para o seu irmão, ele vai saber responder o que aconteceu – eu disse com raiva, eu saí de lá e Gregory me seguiu, eu estava com raiva então me sentei em qualquer mesa.
- Esse lugar está ocupado – um dos garotos que estava lá falou, mas eles se calaram quando viram Gregory e saíram da mesa o mais rápido possível, Gregory se sentou do meu lado.
- O que foi aquilo?
- Não te interessa.
- Nossa o cordeirinho morde – ele disse, ele estava com uma bandeja, mas não tinha o mingau, era um sanduiche, eu olhei para o sanduíche.
- Eles estão dando sanduíches? – eu perguntei e olhei para a cantina, mas não estavam.
- Para mim eles estão.
- O que?
- Você quer? – ele ofereceu metade do sanduiche, eu não queria aceitar, mas ele estava com uma cara melhor que o do mingau, quando eu peguei Gregory segurou minhas mãos – com uma condição
- Não – eu disse soltando o pedaço e pegando minha bandeja de volta, não aceitaria suborno daquele garoto.
- Nossa – Gregory disse, ele colocou seu braço em volta do meu ombro e aproximou do meu rosto, eu tentei me soltar e me afastar, mas não consegui – eu realmente vou ter que te dar umas aulinhas de obediência.
- Cala a boca – eu disse, ele colocou um dedo em meus lábios.
- Não – ele riu de mim – eu estou me cansando de você, e você não vai me querer ver irritado – ele segurou meu queixo – agora come e fica quieto – eu fiquei com medo daquilo, todos no refeitório olharam para mim e fingiram que nada tinha acontecido, eu fiz o que Gregory tinha dito, comi o sanduiche saí o mais rápido daquele refeitório – aonde você vai? – ele perguntou.
- P-Par a aula – eu disse.
- Ok – quando eu passei por Otavio e Spence, Spencer me olhou confuso, e Otavio virou o rosto para não ter que me encarar. Eu fui para o banheiro, me tranquei em um box.
Eu estava com tanta raiva, queria gritar o mais alto possível eu não suportava aquele menino, mas eu não tinha outra opção, era aguentar ele ou aguentar um bando de garotos sedentos, eu não saia o que iria fazer. O sino tocou e eu fui para a escola, o mais rápido para não ter que me esbarrar em ninguém, quando eu cheguei no prédio da escola ela estava cheia de garotos com a mesma roupa andando de um lado para o outro até que o sino tocou mais uma vez e os corredores começaram a esvaziar completamente, eu não sabia para onde ir, não tinha mais o papel das minhas aulas, ele devia estar na bagunça que Gregory tinha feito, então eu fui de sala em sala e olhei no papel pregado na porta procurando por meu nome, eu demorei muito até achar minha sala, quando entrei o professor estava no meio da fala.
- Posso ajudar – ele disse, era um homem baixo careca que usava óculos.
- Eu... eu me atrasei – eu disse
- O que, o ônibus se atrasou? – ele disse sarcástico.
- Não, eu... me desculpa.
- Qual o seu nome?
- Thomas, Thomas Mumford – eu disse.
- Então, Sr. Mumford se sente e não atrapalhe a aula.
- Ok, obrigado – eu disse e fui para as cadeiras, estavam todas cheias, menos uma no fundo, quando eu ia para o fundo, eu percebi os meus colegas de classe, todos pareciam acabados e que presenciaram a morte de alguém.
- Bem, voltando ao que eu estava dizendo, eu sei que a noite de vocês não foi muito... confortável – o professor disse, foi como Otavio disse, todos na escola sabiam do que acontecia e ninguém fazia nada, e nós calouros tínhamos que sofrer, aquilo me deixou com raiva.
Aquele era o nosso professor de geografia e se chamava John Bennet, ele devia ter uns cinquenta, sessenta anos e estava muito acima do peso e parecia ser um completo crápula, do jeito que ele tinha me tratado e como ele falava com todos nós.
- Vocês terão um ano cheio e ocupado, tanto fora quanto dentro desse prédio – ele riu quando disse aquele comentário – hoje eu não irei dar nada, darei um momento para vocês descansarem, mas não esperem que seja assim no restante do período letivo, vocês podem ficar aqui até o sinal da próxima aula – ele pegou seus cadernos e saiu da sala e deixou todos nós sozinho.
Demorou até que alguém falasse algo, alguns conversavam entre si, mas eram poucos, quem mais chamou a atenção foi esse menino, magro e pálido, ele passou a aula toda com a cabeça baixa na mesa, e agora ele chorava, todo mundo olhou e cochichavam entre si.
- O que aconteceu com ele? – eu perguntei para dois garotos que conversavam atrás de mim.
- Você não o ouviu ontem à noite? – eu olhei para eles sem entender.
- Ele foi um dos garotos que tentaram fugir, e os garotos veteranos não gostaram.
- Todo aquele barulho de ontem?
- Sim
- Barulho? – eu perguntei.
- Você não ouviu?
- Foi uma “caça” – o menino que estava sentado na minha frente disse se virando para o nosso lado.
- O que?
- O bloco 2 – eu acho que ele se referia ao dormitório – é o que tem mais calouros, os veteranos deram duas opções, ou a gente ficaria lá de livre espontânea vontade e aceitaríamos o que iria acontecer. Ou poderíamos correr e nos esconder na floresta, se eles não nos achassem nós ficaríamos livres do trote. Ele e alguns fugiram, mas...
- Mas o que? – o primeiro garoto disse.
- Eu ouvi dizer que os que foram procurar eram os piores na hora... um grupo o achou e... – Ele se calou, não conseguiu falar o resto, mas eu entendi pelo tom de sua voz e pelas histórias que eu havia escutado.
- Quantas pessoas foram? – o primeiro garoto perguntou.
- Eu não consegui ver, eu estava... – ele parou por um instante – ocupado, mas pelo o que eu ouvi foram mais de oito – depois daquilo nós quatro nos calamos e ficamos quietos, toda a sala ficou quieta, não havia nenhuma razão para não ficar daquele jeito.
- Mas isso não é nada – o segundo garoto disse.
- Por quê? – perguntamos confusos.
- Eu ouvi dizer que no só tem dois calouros no bloco 1 – ele falava de mim e de Spencer, todos os outros garotos se assustaram.
- Só dois?
- Sim, imagina ter que aguentar o dormitório inteiro em cima deles.
Otavio estava certo, eu queria acreditar que não, mas ninguém naquele lugar tinha salvação, minha noite havia sido horrível, mas ela tinha sido melhor que a de muitos, olhar aquele garoto chorar me fez ficar agradecido por ninguém ter feito nada comigo, Gregory era horrível, mas ele não tinha feito nada comigo, eu não sabia quanto tempo ele não faria nada comigo. Será se eu devia...? Setenta e duas horas atrás eu nunca imaginaria as coisas que aconteceriam, e eu estava ansioso para conhecer essa escola, agora eu só queria fugir, mas não tinha escolhas. O que Vaughn disse fez mais sentido naquele momento eu tinha duas opções a seguir, continuar me esquivando de Gregory até que ele se irrite e faça algo ruim além de ficar à mercê de todo o dormitório ou deixar Gregory fazer o que quiser comigo, mesmo não querendo, as duas coisas eram parecidas, mas nesse eu ainda teria minha dignidade e tudo seria nos meus próprios termos

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