Capítulo 02 | BOYS
Eu e Spencer conversamos um pouco mais até que decidimos sair do quarto juntos para ir conhecer o campus, com bastante cuidado e olhando para os dois lados descemos as escadas e saímos do prédio, fizemos o mesmo caminho que eu fiz com o orientador e passamos pelos outros dormitórios e fomo em direção ao colégio, ele era gigante tanto por dentro quanto era por fora, eu e Spencer nos perdemos um pouco e quando nós nos achamos demorou mais um pouco até irmos a secretária onde precisávamos pegar a grade das aulas.
Eu e Spencer tínhamos matemática e francês juntos, o restante era com professores ou horários diferentes, notamos que apenas havia professores homens, e não tínhamos visto nenhuma mulher desde que as mães foram embora. Depois da secretária, o interfone gritou dizendo que todos os alunos precisavam ir até o ante teatro, que haveria a última orientação do dia.
Quando chegamos, pegamos lugares no meio, não queríamos ficar na frente e nem atrás, queria apenas passar desapercebidos, e eu não queria encontrar aquele tal de Lucas novamente. Quando todos chegaram, o reitor da escola juntos com alguns outros funcionários, ele nos deu as boas-vindas e explicou a arquitetura do lugar para os alunos novos, onde ficava as coisas que talvez precisaríamos no futuro.
Depois dele, foi a vez de outro homem, que se identificou como professor Vaughn e que disse que era vice-reitor no colégio, ele falou das aulas e matérias que haveriam, e que os times esportivos logo abririam vagas para os calouros, depois disse ele nos liberou. Eu e Spencer decidimos conhecer a biblioteca principal que ficava no prédio principal, ela era gigante, tinha dois andares e estava repleta de livros que eu nunca tinha ouvido falar, aquela seria minha salvação já que eu não tinha mais um celular.
Quando voltamos para o nosso dormitório havia vários garotos no refeitório e espelhados ao redor do andar térreo, que parou completamente quando eu e Spencer entramos, de início ele olharam com raiva para gente, mas depois todos começaram a murmurar algo, e seus olhares mudavam completamente de ódio para um olhar diferente, que eu não tinha total certeza qual era.
- Vocês são os calouros novos? – um cara falou para gente impedindo a gente de ir para as escadas e fugir daquele lugar.
- Sim – eu disse, Spencer não falou nada, ele apenas ficou parado sem reação, eu coloquei meu corpo na frente dele. O tal de Lucas apareceu atrás desse cara que foi embora triste.
- Você é o irmão do Otavio?
- Sim, e... Eu sou – Spencer disse nervoso e baixo.
- Então você pode ir, e você eu tenho um assunto para terminar com você, vem comigo – ele disse para mim, ele segurou meu braço com bastante força e tentou me puxar, se na primeira vez eu fui pego despercebido desta eu não fui, eu continuei parado e me soltei a força de suas mãos, ele ficou surpreso com meu movimento
- Não – eu respondi calmo como se nada tivesse acontecido. Se estávamos sozinhos antes, agora não estávamos mais, um círculo de garotos foi se formando para ver o que estava acontecendo, e quando eu disse aquilo todos riram do garoto que me segurou, havia alguns comentários, mas eu não conseguia entender nenhum deles.
- Ele tem atitude, vai se dar bem aqui – alguém dos garotos na multidão falou.
- Eu acho que você não entendeu, eu mandei você vir comigo – ele disse – eu tenho uma coisinha para te mostrar – ele falou com um tom sarcástico e todos riram, todos entendiam a piada, apenas eu que não.
- Não – eu disse mais uma vez, mas antes do cara me responder eu ouvi alguém falar mais alto que todos
- Lucas? – a voz falou, e todos os garotos ao nosso redor começaram a andar cada um para um lado deixando nós três, Lucas, eu e Spencer sozinhos.
Era o vice-reitor, qual era o nome dele mesmo? Vaughn?
- Sim, senhor? – ele disse mudando completamente a postura e falando mais manso.
- Está tudo bem aqui?
- Sim senhor, eu só.... só ia mostrar o refeitório para os novatos
- Esse é o trabalho do representante, não é?
- Sim
- Se você não quiser que outra pessoa pega a raquete e vai jogar tênis no seu lugar eu sugiro que o senhor não atrapalhe os outros.
- Sim senhor.
- Bem, você pode ir agora
- O... Obrigado senhor – Lucas disse foi embora.
- Vocês – o vice-reitor disse – devem ser Thomas e Spencer?
- Sim – eu disse
- Bem, eu queria pessoalmente dar as boas-vindas para você, principalmente para você Thomas.
- Eu
- Sim, seu pai, Tassio, e o meu são muito amigos, e eu também estudei na mesma época que o seu irmão
- O Tassio não é meu pai, ele é meu padrasto – eu disse
- Sério? Então me desculpe pelo erro, mas enfim, eu ainda estaria aqui, para falar com vocês. Eu acho que vocês já perceberam que são os únicos calouros nesse prédio, não é?
- Sim – eu disse.
- Bem, esse dormitório sofreu uma punição algum tempo atrás e a vinda de calouros para cá foi revogada, e por decisão minha eu deixei que dois alunos viessem para cá, para que eu possa ver se eles aprenderam com o erro, então eu espero que no futuro vocês dois possam me dizer como está a convivência entre vocês e os veteranos, tudo bem?
- Sim – Spencer disse.
- Bem, eu não quero mais atrapalhar os dois, eu aposto que devem ter diversas coisas para resolverem, eu só queria dizer isso, nos vemos depois, ok?
- Sim – Spencer disse, ele seguiu direto para o nosso quarto, mas eu segui o vice-reitor
- Com licença – eu disse me aproximando dele, ele olhou para trás e parou – desculpa, senhor eu posso falar com você
- Sim, claro, mas por favor me chame de Logan, professor Logan.
- Tudo bem, Logan... eu só queria perguntar uma coisa.
- O quê?
- Meu padrasto, Tassio, disse que “mexeu alguns pauzinho” para que eu pudesse entrar na escola, eu queria saber se isso é verdade, se eu realmente não consegui passar na prova da bolsa – eu disse, não queria ter em minha consciência que eu estava ali apenas por influência de meu padrasto, e não de mim mesmo.
- Bem, eu não sei – disse o professor Logan – porque você não me acompanha até o meu escritório e eu poderei checar a sua situação.
- Sim, tudo bem – eu disse.
- Thomas, eu apenas queria dizer, independente do que eu achar, que você saiba aproveitar as oportunidades que você tem pela rente estando aqui na St. Vincent
- Como assim?
- Bem, eu não serei hipócrita, a St. Vincent é muito antiga e tem tradições tão antigas quanto, o que é ruim e bom ao mesmo tempo, muitas pessoas têm respeito pela escola e os alunos dela, então no decorrer de sua vida você verá que estudar aqui será um “Q” a mais. Mas com esse legado também vem outros, principalmente falando de uma escola apenas para garotos, há muito nepotismo aqui, eu não posso negar, se você for filho de um ex-aluno ou seu sobrenome for de renome, você tem grandes chances de ser aceito aqui. Há apenas uma bolsa de estudos em toda a escola, o que ao meu ver não é muito justo, e até mesmo nisso a escola pode ser tendenciosa, mas pelo que eu entendi, sua situação é um pouco diferente da dos demais alunos, Tassio é seu padrasto, não é?
- Sim
- E pelo o que eu vi no seu tom de voz, vocês não se dão muito bem
- Não.
- Eu não quero julgar, mas olhando para você, você não parece ter nascido no mesmo berço de ouro que Tassio, e os filhos deles nasceram.
- Não... – eu disse
- Bem, eu também não tenho as mesmas origens que o restante das pessoas aqui, mas eu consegui chegar aonde estou não só por mim mesmo mais me apoiando nas oportunidades que vinham pela minha frente. Thomas, eu posso ver se foi você que tirou a melhor nota no vestibular, eu posso dizer se você mereceu ou não estar aqui hoje, mas eu recomendo que você apenas pare de pensar nas coisas como se tudo fosse preto no branco, e que você aproveito o que lhe é dado.
Eu não queria ficar ali se eu não merecesse, mas o professor Logan tinha razão, se eu continuasse a viver daquele jeito eu não viveria de verdade, se eu não aproveitasse aquilo, eu não conseguiria ficar longe de Tassio, apesar dele ter posto a mão em minha estadia na escola, talvez aquilo fosse ser o melhor, estudar em St. Vincent poderia ser o caminho para minha independência, então eu resolvi aproveitar ao invés de reclamar.
-Você tem razão – eu disse parando – talvez ele tenha me colocado aqui dentro, ou talvez não, e agora eu realmente não me importo.
- Sim.
- Me desculpe por fazer você perder o seu tempo professor – eu disse.
- Não se desculpe. – eu me despedi do professor Logan e voltei para o dormitório.
- Boa sorte no trote – o professor Logan disse enquanto eu me afastava. Trote? Haveria um trote?
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Eu havia conversado mais tempo com o professor Logan do que eu havia imaginado, enquanto eu voltava o caminho que eu tinha acabado de percorrer a tarde tinha começado a virar noite e quando eu cheguei no dormitório toda a estradinha de pedras havia desaparecido com a noite. E quando eu entrei tudo estava um completo breu, uma escuridão onde eu quase não podia enxergar nada, aquilo era estranho, ainda eram sete da noite, mas todas as luzes foram apagadas, eu não conseguia, e nem tentei muito, achar um apagador para ligar alguma luz.
Com ajuda da luz do restante do pôr do sol e do começo de lua e com a minha memória fotográfica eu consegui achar as escadas, e bem devagar eu subi até o meu andar, enquanto eu passava pelos outros andares eu consegui ver algumas luzes vindo de poucas portas, mas a luz era fraca e se mexia constantemente, comecei a pensar se havia acontecido algum apagão. Quando cheguei em meu quarto eu fui apalpando a parede até chegar na última porta que era o meu quarto.
- Thomas? – Spencer disse assustado quando eu abri a porta.
- Sim – eu respondi – o que foi?
- Nada.
- O que aconteceu? Por que não há nenhuma luz funcionando?
- Eu não sei, eu estava deitado lendo e do nada todas as luzes acabaram.
- Em todo o prédio.
- Sim, eu não sei, eu não saí daqui, mas eu consegui ouvir várias vozes.
- Vozes?
- Sim, quando as luzes se acabaram, eu ouvi movimentação no nosso andar.
- No andar que só tem a gente?
- Sim, talvez eu esteja ficando louco.
- Talvez – eu disse, mas lembrei do que o professor Logan havia dito, será que aquilo fazia parte do trote? – o professor Logan disse que haveria um trote, será se é isso?
- Eu não sei, talvez, meu irmão não falou nada em trote, professor Logan?
- Sim o vice-reitor, ele me pediu para o chamar de professor Logan.
- O que você foi falar com ele antes?
- Nada, sobre minha bolsa.
- Bolsa?
- Sim, eu entrei aqui pelo programa de bolsas, de bolsa quer dizer.
- Eu ouvi dizer que a prova é muito difícil, e que há apenas uma bolsa.
- Sim
- Então você deve ser um gênio, ela é muito concorrida.
- Eu não sei, talvez.
- Você está com fome?
- Não.
- Nem eu, e eu não acho que irá ter comida no refeitório lá embaixo com esse apagão.
- Sim, eu também acho.
Spencer e eu conversamos um pouco mais naquela noite, não ver os rostos um do outro de certa forma ajudou a nos aproximar, contamos um pouco sobre a vida um do outro e porque estávamos aqui, bem eu tinha um motivo, já Spencer apenas estava seguindo a tradição da família em estudar em St. Vincent. Ele não queria estudar aqui, mas foi obrigado pelo pai, assim como seu irmão, Otavio foi, ele disse que Otávio fazia parte do time de tênis da escola, e que a maioria do nosso dormitório estava envolvido no time, seja jogando ou ajudando de alguma forma.
No St. Vincent, haviam vários times de vários esportes, cada dormitório montavam um time, mas apenas um dos dormitórios representava a escola, havia torneios aqui dentro que definia qual time seria o oficial, a maioria dos dormitórios tinham diversos times, mas como no nosso dormitório quase não havia alunos, a gente apenas conseguiu vencer o time de hóquei.
Spencer disse que a relação entre os dormitórios não era nada boa, e que Otavio disse que seria muito difícil outro calouro viesse falar com a gente, os veteranos os proibiam, e com o passar do tempo o ódio crescia e assim eles o passariam para os próximos calouros e assim sucessivamente.
- Tudo isso é muito bizarro.
- Sim, e não faz o menor sentido.
- Sim, você sabe o motivo do nosso dormitório ter sido penalizado?
- Eu não, sei muito, Otavio não sabe ou não quis dizer, eu sei que teve algo haver com os veteranos na época em que meu irmão era calouro, e que quando o Otavio voltou para nossa casa no verão ele estava bem diferente, e demorou muito para ele voltar ao normal.
- Será se foi algo que os veteranos fizeram com os calouros?
- Eu não sei. Bem, eu só espero que façam o mesmo com a gente.
- Sim, eu também.
Eu ainda não entendia tudo o que eu deveria sobre St. Vincent, mas ao menos aquele já era um começo, eu iria ficar naquele colégio pelos próximos quatro anos, então eu ainda teria muito tempo para descobrir. Eu e Spencer conversámos um pouco mais sobre música e fomos dormir, eu não fazia ideia de qual era a hora, eu não tinha meu celular para ver a hora e estava muito escuro para ver em um relógio, além de eu não ter nenhum relógio no quarto.
No meio da noite, eu acordei com um barulho do lado de fora do meu quarto e quando abri os olhos vi que havia várias luzes se mexendo do outro lado da nossa porta, eu me sentei na cama, eu usava apenas uma cueca samba-canção tentei procurar aonde tinha deixado o restante de minha roupa, mas estava escuro e eu ainda não conhecia aquele quarto direito.
- O que foi isso? – Spencer disse
- Eu não sei.
Junto com as luzes, veio também um barulho, cochichos. Na ponta de meus pés eu fui chegando perto da porta, e especei meus pés para que a minha sombra não aparecesse do outro lado, quando coloquei meu ouvido na porta eu consegui ouvir os cochichos melhor, ele não eram cochichos e sim uma discussão, eu não sabia quem eram, devia ser alguns dos meninos do dormitório tentando pregar uma peça em mim e em Spencer, mas eles mesmo não conseguiam chegar a um consenso em alguma coisa e por isso estavam discutindo.
Se eu tive medo ele foi por água abaixo, voltei a pisar com todo o meu pé no chão e abri a porta, o que assustou os caras que estavam ocupados discutindo, eu não consegui ver o rosto de ninguém, todos estavam com lanternas na mão e todos apontaram em meu rosto.
- O que foi? – eu disse quando abri a porta, foi seguido por um pequeno susto dos garotos, mas depois o medo que eu tinha perdido voltou completamente quando um dele me pegou pelo braço e me segurou forte, eu tentei me soltar, mas ele era mais forte do que eu e logo tinha controle sobre mim, quando ele me segurou quieto o suficiente outra pessoa colocou uma fita isolante em minha boca e amarraram uma fita em meus olhos, quando soltaram meu braços eu percebi que havia amarrado meus pulso também e pude ouvir quando eles entraram em meu quarto e os gritos de Spencer, ele devia ter feito o mesmo com ele que fizeram comigo.
Eu e Spencer fomos arrastados pelo corredor, e os garotos fizerem voltas e mais voltas, eu percebi que eles queriam parecer que iriamos para algum lugar longe, mas ao que parecia ainda estávamos no mesmo prédio, Spencer gritava o máximo que podia e não parava nem para respirar, apesar de um pouco de medo, eu fiquei completamente quieto tentando entender o que estava acontecendo.
Quando finalmente paramos eles nos fizeram nos ajoelhar um do lado do outro e tiraram nossas vendas, Spencer estava completamente acabado, os olhos estavam inchados de tanto chorar e desesperados tentando entender o que estava acontecendo.
- Calouros – uma voz disse – seguindo as tradições mais antigas de St. Vincent hoje vocês se ajoelham perante ao veteranos como a ordem natural das coisas ditam, nesse ano vocês serão nossos servos, nossos escravos e viveram para nos satisfazer – nessa hora todos riram – em toda e qualquer forma, essas são as regras do St. Vincent, e não há nenhuma outra alternativa a não ser segui-las. E daqui um ano, vocês estarão do nosso lado dizendo o mesmo para os novos calouros.
- Se houver algum – alguém falou no fundo.
Todos usavam capas com toucas que tampavam o rosto da maioria, e as luzes das lanternas não me ajudavam a identificar quem eram eles, o homem que falava lia tudo em um livro, pelo chão de ladrilhos eu deduzi que estava no banheiro comunitário do dormitório, Spencer tinha finalmente ficado quieto ouvindo o que os outros tinham a dizer. Eu queria sair dali aquela era uma situação que eu com certeza não queria estar, mas a voz do professor Logan ecoava pela minha cabeça, eu deveria seguir com a vida aqui no St. Vincent, todos diziam como estudar lá me traria vantagens no futuro, então enquanto ouvi aqueles caras falarem tudo aquilo, eu tentava pensar que eu deveria passar por aquilo se eu quisesse ser alguém na vida. Em poucas horas eu tinha me tornado um aluno exemplar de St. Vincent.




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