Capítulo 07: "Apaixonado?" [2º Parte] | FIGURA PATERNA

Figura Paterna

Capítulo 07

"Apaixonado?"
Quando acordei pela segunda vez naquele dia a casa estava completamente em silêncio, meu pai ainda estava trabalhando, era um sábado então não precisava ir para a escola. Eu não tinha muita coisa para fazer, pesquisei na internet coisas que caiam em uma prova de supletivo para poder me preparar para ajudar George. Eu estava feliz, feliz por poder ajudar ele naquilo, eu sabia como o estudo podia ser importante e George parecia realmente querer aquilo, eu ainda não entedia o motivo de meu pai desanimar George, eu queria questioná-lo, mas George me fez prometer não contar nada para o meu pai, e para falar a verdade, do jeito que meu pai estava sendo nos últimos tempos, eu não sabia se eu gostaria da resposta que ele me daria.
Passei o sábado pesquisando sobre a prova e quando ele seria em minha cidade, ela não estava longe, seria em apenas três semanas, eu não sabia se era tempo o suficiente para George que não ia na escola há muito tempo e que só tinha apenas eu para ensiná-lo de tantas pessoas mais competentes para aquele trabalho. Naquele mesmo domingo meu pai fez mais uma de suas saídas misteriosas sem nenhuma explicações, eu sabia que ele iria demorar por isso fui até a casa de George, não era uma casa, era um pequeno cômodo que ficava em nossa fazenda, era pequena mas era o suficiente para um homem solteiro como George.
Quando eu cheguei ele se surpreendeu com a minha visita, ele não me esperava tão rápido, ele tinha acabado de tomar banho e estava apenas de calça e sem camisa, eu tentei não olhar, mas consegui ver alguns flashes de seu torso nu antes dele colocar sua camisa. Nos sentamos em uma mesa extremamente pequena que mal cabia duas pessoas, eu tinha tirado aquele dia especialmente para medir o nível de George nos temas básicos, eu queria saber aonde George estava para eu poder partir de lá, eu peguei alguns exercícios da internet e também dos meus próprios livros da escola e trouxe para que ele pudesse resolver.
George não era tão ruim quanto ele queria que eu acreditasse,  ele sabia de algumas coisas, e outras ele lembrava de algumas partes, meu trabalho era mais relembrá-lo botar aquilo em uso, eu comecei com biologia, era uma de minhas matérias favoritas e que eu tinha um conhecimento um pouco mais abrangente para poder ensiná-lo. Ficamos ali, em sua casa por muito tempo, mas que pareceram minuto pois logo que vi o relógio eu vi que tínhamos ficado tempo demais ali, já eram quase meia-noite.
Eu me apressei, não sabia se meu pai tinha chegado em casa ou não, e se ele tivesse ele deveria estar extremamente preocupado por eu não estar lá, quando cheguei em casa cansado, estava tudo apagado, fui na ponta dos meus pés para o meu quarto e abri a porta devagar apenas para ver que eu era o único em casa, estava aliviado por não ter sido pego, mas de certa forma, estava triste por não encontrar meu pai na cama, ele ainda estava fora sabe lá aonde, estava preocupado com ele, o que ele tanto fazia longe, e aquilo era mais importante do que eu? Já faziam dias que ele não me tocava e sequer me beijava, estava com saudades dele, mesmo ele estando presente.

Quando acordei para ir para a escola, meu pai estava dormindo do meu lado, aquilo não era do seu feitio, ele sempre acordava antes de mim, mas agora ele levava uma vida diferente, eu não sabia quando ele tinha voltado, só sabia que era tarde demais, ele também cheirava a bebida, o cheiro tinha inundado todo o quarto e estava quase insuportável, me arrumei e tomei café da manhã, e ele ainda estava dormindo, ele com certeza não iria me levar para a escola, e eu estava muito atrasado para ir andando. Depois de arrumar tudo eu fui até a casa de George, ele ainda estava dormindo, demorou para me atender e quando fez estava apenas de cueca e com o cabelo completamente bagunçado, aquela era a segunda vez que eu tinha visto George sem um boné, seu cabelo tinha uma cor bonita, uma espécie de mele queimado, e sua barba que começava a crescer era ruiva, ele era branco talvez tão branco como eu, mas tinha seu rosto, ombros, braços e pernas queimados pelo sol.
- Seu Cassio? – ele disse.
- Oi George, eu... meu pai não chegou bem e está dormindo, será se você poderia me levar para a escola no carro dele?
- Eu?
- Sim.
- Sim, claro! Eu só preciso vestir algo que eu... – ele olhou para baixo e percebeu que estava apenas de cueca, eu ri, aquilo me lembrou do nós dois dias antes só que em papéis invertidos.
- Eu te espero no carro.
- T-Tudo bem.
Quando cheguei na garagem o carro estava estacionado fora dela e muito mal estacionado, ele estava cheio de barro nos lados e a porta estava entre aberta com a chave a ignição e os faróis da frente estavam ligados. Eu dei um longo suspiro, meu pai estava pior do que eu imaginava, aquele não era a primeira vez que ele tinha chegado bêbado em casa, era inúmeras vezes, principalmente quando minha mãe era viva, depois dela e de nós ele nunca tinha feito aquilo, mas dessa vez parecia completamente pior que todas as outra vezes. Eu não sabia se meu pai tinha algum problema com bebida, eu era muito novo para entender dessas coisas antes, mas agora... 
George apareceu pouco depois de eu ter desligado o carro, eu tinha acabado de sair do volante.
- Tudo bem?
- Sim
- O que aconteceu aqui? – ele olhou para o nosso arredor.
- Meu pai aconteceu – eu disse, George ficou calado e apenas entramos no carro e saímos da fazenda em direção à escola.

Quando eu saí da escola meu pai estava me esperando, ele estava lá há muito tempo, pois estava na frente da escola na melhor vaga, eu apenas entrei no carro, não queria conversar com ele, estava com raiva, dele não ter me levado na escola, mas principalmente por tudo o que ele estava me fazendo passar naqueles últimos dias.
- Oi filhão – ele disse assim que entrei no carro.
- Oi.
- Me desculpa, eu não ter te levado hoje.
- Tudo bem, o George me trouxe aqui.
- O George?
- Sim, eu pedi, eu fiquei te esperando e não dava mais tempo de vir andando então eu pedi para ele me trazer.
- Ah sim – ele disse ligando o carro e indo de volta para casa. A viagem de volta para casa foi silenciosa, meu pai não havia falado nada e nem eu. 
Quando chegamos em casa ele entrou em casa para tomar água e eu vi uma oportunidade de falar com ele.
- Pai?
- Sim?
- Eu quero ir na biblioteca amanhã depois da escola, então se você puder vir me buscar mais tarde...
- Cassio, você sabe que eu não posso simplesmente largar tudo aqui e ir de buscar qualquer hora.
- Eu posso vir andando.
- Eu não quero você andando sozinho por aí.
- Eu tenho que estudar, eu estou mais perto de ir para faculdade, eu preciso de notas melhores na minha média – meu pai passou a mão em seu rosto, ele não iria discutir com aquilo, eu tinha tocado em um ponto que ele não podia simplesmente negar – o George poderia ir me buscar, ele disse que tem a maior parte das tardes livres ele faz tudo de manhã – eu estava com raiva de meu pai, e ele estava em um momento que tinha feito algo ruim, pelo menos em um momento que ele percebeu que fez besteira, eu não faria aquilo normalmente, mas ele meio que merecia aquilo.
- Sim, mas...
- Eu não me importo de vir andando, eu já falei.
- Não! Tudo bem... eu preciso conversar com o George para ver se ele concorda.
- Tudo bem! – eu disse e dei um beijo em sua bochecha e fui para o nosso quarto. Eu não gostava do jeito que eu tinha feito aquilo, mas pelo menos eu tinha arranjado um jeito de ficar com George estudando sem que meu pai percebesse.
Naquela noite, meu pai falou que George ia me buscar no fim da tarde todos os dias na biblioteca da cidade, e que eu não deveria sair para nenhum outro lugar se não fosse a escola ou a biblioteca, meu pai era chato com aquilo, principalmente depois de eu começar a ir na escola, ele não me deixava sair em nenhum outro lugar, não sem ele, ou sem a supervisão de alguém em que ele confiava, eu não me importava, pois eu gostava de sua companhia, mas agora... E sem quase nenhuma outra pessoa em que ele realmente confiasse, George era a única pessoa que ele deixaria me buscar. 
A fazenda tinha novos rostos, a maioria eram pessoas mais novas, meu pai havia demitido pessoas que trabalhavam a mais tempo, ele disse que estava no momento da fazenda ter um novo começo, eu sabia que havia acontecendo alguma coisa, talvez ele quisesse pessoas que não nos conheciam tanto para que não houvesse nenhum comentário na cidade. 

George sempre ia me buscar depois das seis da tarde, alguns dias nós apenas líamos quietos eu algum livro qualquer, ele sobre alguma matéria, ele me perguntava coisas que ele tinha dúvidas, em outros dias fazíamos exercícios, fizemos um simulado com uma prova antiga e ele não foi bem, ele ficou desanimado com o resultado, depois daquilo ele não quis mais estudar e demorou alguns dias para eu fazer ele voltar com nossas aulas, faltando cinco dias para a prova ele fez outro simulado, ele foi melhor, mas não passou pelos números de acerto, ele ficou nervoso, aquela foi a primeira vez que o vi daquele jeito, sempre que eu corrigia alguma coisa dele ele ficava inquieto até eu dizer a nota. Ele ia bem em tudo, menos nos simulados, talvez pelo nervosismo.
Nós voltamos para o carro sem conversar.
- George, eu...
- Não! Não precisa, desculpa por fazer você gastar seu tempo, eu sabia que isso era uma ideia besta mesmo.
- Não George, não é assim, você vai bem em tudo, se nós continuarmos...
- Continuarmos? Cassio só falta cinco dias, e amanhã e sábado, nós só temos quatro dias, eu não tenho tempo para.
- Mas você já se esforçou tanto.
- Me esforcei para nada, eu não sei como eu me deixar levar por você.
- Como assim?
- Nem todo mundo tem tempo Cassio, eu tenho que me preocupar com meu trabalho, com seu pai e com isso, eu não tenho feito nada além de me estressar, no trabalho ou aqui desde que comecei a fazer isso. Eu não posso perder meu trabalho, e se seu pai descobrir ele...
- Ele não vai fazer nada, eu não vou deixar.
- Como se você mandasse alguma coisa.
- Como?
- Você acha que seu pai é um santo, mas ele não é, desde que sua mãe morreu ele só tem piorado...
- Piorado?
- Sim, ele reclama com tudo, ainda mais com os novos funcionários, e desde que eu estou vindo aqui, ele tem pegado ainda mais no meu pé, eu estou com mais trabalho, as vezes eu acho que me dá mais trabalho para eu não poder vir aqui te buscar.
- George...
- Nem todo mundo tem um pai que banca tudo, nem todo mundo tem a oportunidade de ser inteligente e ter oportunidades como você – ele disse quase gritando, ele estava com raiva. Eu não iria discutir com ele, ele não estava com raiva de mim, estava frustrado pela prova e aparentemente pelo meu pai.
- Eu vou conversar.
- Não! – ele disse – você não percebe se seu pai souber de alguma coisa ele me demite, e aí sim eu não vou ter nada.
- George.
- Isso não dá! Eu sinto como se nós tivéssemos um caso, mentir dizendo que eu não estou estudando a que ponto eu cheguei – eu ri – e todo mundo, principalmente seu pai, agem como se eu tivesse te comendo – ouvir aquilo fez meu coração pular uma batida, eu nunca tinha ouvido George falar daquele jeito, ele olhou para mim – desculpa, eu não...
- Tudo bem. 
Continuamos a viagem em silêncio, comigo olhando para a janela e não me permitindo olhar para George, que sempre virava seus olhos para mim, ele tentou falar algumas vezes, abrir a boca, mas não disse nada. Quando chegamos em casa eu simplesmente saí do carro e fui direto para meu quarto.
Eu estava descontente, com raiva de George por ter descontado suas frustações comigo. Eu queria entender o seu lado, mas eu também tinha gasto meu tempo com aquilo, para ele simplesmente desistir quando estávamos tão perto, por um motivo tão besta, eu não sabia se eu continuaria insistindo com ele.
No outro dia eu disse para meu pai que não iria na biblioteca e que ele poderia me buscar no horário normal. Depois de três dias a minha rotina antiga tinha voltado, ir para a escola meu pai me buscar e ficar a noite sozinho enquanto ele saia. Na sexta-feira antes do teste de George meu pai me deixou em casa e voltou para a cidade “por causa de trabalho” ele disse, aquela desculpa já não me irritava mais, eu apenas concordei com minha cabeça enquanto ele ia embora.
Eu passei a tarde lendo um livro, uma das coisas boas que ensinar George me proporcionou foi eu ler diversos livros, minha mãe amava ler, então eu me sentia mais perto dela quando eu lia, naqueles dias eu não me sentia feliz muitas vezes, ler e passar tempo com George eram uma das poucas pessoas que eu gostava de fazer.
Quando deu quatro horas o sol já estava se pondo, eu fiquei o dia inteiro inquieto, eu não podia imaginar que sentira falta da biblioteca tanto, qualquer coisa era melhor do que ficar preso naquela casa. Eu também não parava de pensar em George, nele desistir tão perto, eu me levantei do sofá e saí de casa, não sabia o que iria fazer, mas saí do mesmo jeito.

- George? – eu disse quando encontrei ele sozinho no celeiro, ele estava arrumando os fenos em uma pilha, já tinha passado seu horário de trabalho. Ele olhou para mim e voltou a fazer seu trabalho.
- O que foi? – ele disse frio.
- T-Tudo bem? – não queria parecer agressivo, mesmo depois da nossa conversa do outro dia.
- Sim... Olha Cassio, se você for tentar me convencer a...
- Não! – eu o interrompi – eu só... Só queria pedir desculpas.
- Desculpas?
- Sim. Você estava certo, eu presumi que você era que nem eu, nem todo mundo precisa estudar, isso não significa felicidade e me desculpa por fazer você se sentir bem, se você quiser parar eu entendo, eu só acho uma pena todo o esforço que tivemos ir para o ralo, mas se você não quiser fazer a prova é uma escolha sua. E me desculpa por fazer você se encrencar no trabalho, eu sei que você não quer, mas eu posso falar com meu pai e assumir toda a culpa.
Ele desocupou suas mãos e tirou sua luva, ele estava suado, havia sido um dia quente, e ele tinha trabalho o dia inteiro. – Olha Cassio, você não precisa se desculpar, você só queria o meu bem. Naquele dia... bem eu não fui muito educado, me desculpa.
- Não, eu...
- Me desculpa pelas coisas que eu disse, passar esse tempo com você me fez perceber que você é mais gentil com as pessoas do que a maioria merece, inclusive eu – ele limpou sua testa com seu antebraço direito – Eu... eu também acho um desperdício se eu não fizer a prova e... – Eu não o deixei terminar, eu o abracei e ele ficou quieto.
- Ainda bem, eu achei que tudo aquilo foi para nada, eu ia ficar com tanta raiva de você – ele riu e me abraçou de volta, ele colocou seu braço em volta a minha cintura, com meu pai fazia quando...
Eu me afastei dele e ele me assustou e rimos sem graça ao mesmo tempo.
- Desculpa, eu to todo suado e...
- Não, eu que te abracei é minha culpa – eu olhava para o chão, sentia que se olhasse para o rosto dele eu ficaria com ainda mais vergonha do que naquele momento – e já estou acostumado com meu pai – eu senti que não deveria ter dito aquilo no segundo que saiu de minha boca, ficamos em silêncio mais uma vez.
- Cassio?
- Sim.
- Seu pai. E-Ele já alguma vez te fez fazer algo que você não queria.
- O quê? – meu coração bateu mais rápido quando ele disse aquilo.
- Seu pai ele...
- Não! – eu disse cortando-o
- Me desculpa – ele percebeu como aquilo me fez ficar – é só que eu... – ele se aproximou de mim – as vezes minha cabeça vai em lugares estranhos, e eu... bem eu não quero que nada de ruim acontecesse com você, porque... bem eu...
- Sim, eu sei... – estávamos muito perto, eu não tinha me afastado o suficiente depois do abraço, eu conseguia sentir o cheiro de George e lembrar que segundos atrás estávamos nos tocando, eu comecei a pensar em coisas que não gostaria, mas que não paravam de acontecer em minha cabeça, eu olhei para os olhos de George, ele estava tão desnorteado quanto eu, eu queria falar alguma coisa, sair dali, mas meu corpo não me deixava, não me obedecia.
Tanto eu quanto George nos aproximamos, perto demais, eu conseguia sentir sua respiração em meu rosto, ele tirou seu boné e jogou no chão, eu me aproximei ainda mais e levei seu cabelo para trás com minha mão. Agora estávamos tão perto que nossos narizes se tocavam e nossos lábios compartilhavam apenas um espaço, um beijo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

VERÃO ARDENTE | Apresentação + Personagens

DESEJO - EP1

DESEJO - EP7